José Tadeu Arantes (Agência FAPESP)

Pier Paolo Pasolini (1922-1975) é nome referencial do cinema da década de 1960. Em um período marcado pela atuação de grandes diretores, como Ingmar Bergman (Suécia), Federico Fellini (Itália) e Akira Kurosawa (Japão), para citar apenas os maiores, Pasolini produziu uma obra cinematográfica poderosa, que questionou valores estabelecidos e apresentou novas perspectivas sociais, políticas e estéticas. Filmes como Il Vangelo secondo Matteo (O Evangelho segundo São Mateus, 1964), Uccellacci e Uccellini (Gaviões e Passarinhos, 1966), Edipo Re (Édipo Rei, 1967), Teorema (Teorema, 1968) e Il Fiore delle Mille e Una Notte (As Mil e Uma Noites, 1974) “fizeram as cabeças” de toda uma geração. Para não falar de Salò o le 120 Giornate di Sodoma (Salò ou os 120 Dias de Sodoma, 1975), baseado na obra do Marquês de Sade, que levou o cinema ao limite do suportável.

Um lado menos conhecido, mas extremamente relevante, é que, além de cineasta, Pasolini foi também poeta, teatrólogo, romancista, ensaísta, pintor e desenhista. De fato, foi como poeta e escritor que ele se tornou inicialmente famoso, ainda em meados da década de 1950. Seu romance Ragazzi di vita (Meninos da vida, 1955) gerou enorme polêmica. Processado por “obscenidade”, o autor acabou absolvido.

Mas sua imagem pública estaria, a partir daí, claramente definida. Homossexual em um contexto no qual a homossexualidade ainda era fortemente estigmatizada, Pasolini escandalizou pela vida e pela obra. Igualmente marcante foi sua adesão e posterior expulsão do Partido Comunista Italiano. Foi esse lado do pensador radical, do crítico da sociedade e da cultura, que mereceu maior atenção no livro Um intelectual na urgência: Pasolini lido no Brasil. Organizado por Maria Betânia Amoroso e Cláudia Tavares Alves, o livro, publicado pela Editora Unesp e Editora da Unicamp com apoio da FAPESP, reúne 17 ensaios, de estudiosos brasileiros e italianos.

“Este conjunto de ensaios constitui a abordagem mais ampla que já se fez da obra de Pasolini no Brasil. Nossa intenção foi reunir, em uma mesma publicação, desde textos históricos, dos anos 1960, passando por estudiosos que estão agora na faixa dos 40, 50 anos, até pesquisadores jovens, para mostrar que existe, no Brasil, um arco de estudos de Pasolini longo e particular”, dizem as organizadoras do volume. No conjunto de 17 ensaios, há textos históricos, escritos durante a vida de Pasolini, como o artigo “Importância de Pasolini”, produzido por Ruggero Jacobbi em 1960, e o artigo “Paixão e ideologia”, assinado por Alfredo Bosi em 1967. Italiano, Jacobbi viveu no Brasil por 14 anos. Seu ensaio enfoca os romances Ragazzi di vita (Meninos da Vida, 1955) e Una vita violenta (Uma vida violenta, 1959) e os poemas de Le ceneri di Gramsci (As cinzas de Gramsci, 1956). Bosi, um dos mais respeitados intelectuais brasileiros, trata da expansão dos interesses de Pasolini na década de 1960, quando este agregou o cinema à sua polimórfica atividade cultural. O cinema pasoliniano propriamente dito foi tratado no livro por meio de um ensaio de Ismail Xavier, outro nome consagrado da intelectualidade brasileira.

Como afirmam Amoroso e Tavares, o título do ensaio de Bosi, “Paixão e ideologia”, capta um binômio central e recorrente na obra pasoliniana, uma espécie de síntese de seu pensamento, notado pela crítica italiana ainda na década de 1940. “Ele foi um intelectual público, um intelectual do embate, um intelectual do ataque. E as reações que suscitou foram igualmente fortes e violentas. Não podemos esquecer, é impossível esquecer, que ele morreu assassinado”, sublinham as pesquisadoras.

O assassinato brutal de Pasolini, alegadamente perpetrado por um garoto de programa nas primeiras horas de 2 de novembro de 1975, jamais foi esclarecido de maneira cabal e convincente. Muitas suposições foram feitas a respeito, inclusive a de que o assassino não teria agido sozinho e que, para além do aspecto sexual, o crime teria motivações políticas. Vale lembrar que a década de 1970 foi um período de extrema desagregação social e violência política na Itália. “Pasolini foi um crítico agudo da nascente sociedade de consumo na Itália e anteviu onde isso iria levar, a um desenvolvimento cruel, perverso e sem retorno”, pontuam Amoroso e Tavares. Mais informações sobre o livro “Um intelectual na urgência: Pasolini lido no Brasil” podem ser acessadas no catálogo da Editora Unesp.

Vídeo de divulgação de obra com depoimento da organizadora.